Amor Líquido (parte 1)

O tempo passou, eu andei bem sumida e muitas coisas aconteceram, seja no mundo, seja comigo. 

Pessoas morreram, como o Michael Jackson, e creio que muitas outras nasceram. Os dias se passam, com pressa, e com eles vejo mais e mais apressados pelas ruas. Atropelam o que veem pela frente, furam filas, ignoram os que precisam de ajuda e aproveitam para soltar uma baforada de cigarro no ar.    

“Estou na correria, não incomode” é a expressão que vejo, ultimamente, no olhar das pessoas. 

Essa é a frase do século, diria um professor da Cásper, Dimas Kunsch. Seria também mais um sintoma da superpopulação, termo que insisto em usar todas as vezes que essa cidade me causa pavor. 

amor liquidoMas acima de tudo, “estar na correria” é uma máscara imposta no rosto daqueles que são vítimas de um fenômeno dos tempos modernos: o amor líquido. O termo é, originalmente, do sociólogo polonês Zigmunt Bauman. Líquido, aqui, significa algo que se esvai com o tempo, que não é sólido, mas se desmancha no ar, como diria Karl Marx.

Os laços humanos, os vínculos, estão cada dia mais frágeis. Isso não é algo novo, é fato anunciado na Bíblia. O amor está se esfriando.

Por amor entenda não comente a relação homem e mulher, mas o cuidado em relação ao outro, ao próximo, talvez uma questão de cidadania, caso deseje simplificar. Ao meu redor não vejo mais pessoas educadas, gentis. Todos estão na correria, portanto, sem tempo para boas maneiras.

Tenho amigos que reclamam de certas mulheres e as consideram grossas por não permitirem que eles abram a porta do carro. Outras insistem em dizer que, dos homens, elas só faltam apanhar. No mínimo paradoxal, não é mesmo?  

Seja lá como for, infelizmente passo a considerar o amor líquido como fato. Mas creio que há ainda há tempo de recuperá-lo. Embora, as vezes, eu tenha vontade de nadar a favor da correnteza e parar de me importar com as coisas, e principalmente com as pessoas, minha consciência insiste em me acusar.

Por isso seguirei “perdendo” meu tempo com pessoas, mesmo que outros insistam em ignorá-las.

Peço que os adeptos desse pensamento se manifestem, assim não me sentirei só em meio ao caos do amor líquido.

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